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DNA da Traição

DNA da traição

Sabrina Cunha
Às vésperas do dia mais romântico do ano, 12 de junho, chega uma mensagem no meu WhatsApp. Uma amiga, desabafando. Estava se separando, depois de anos de casamento, com filhos, porque descobriu que estava sendo traída pelo marido. Li aquela mensagem e parei para pensar. Nos últimos anos, quantas vezes eu ouvi a mesma história de outras mulheres? Aliás, eu mesma vivi uma dessas histórias. Calei. Será que a traição faz parte do amor? Será que o amor à dois, está fadado a ser à três, quatro ou quantos mais? Será possível ser fiel?
Há dez anos, exatamente nessa época de festejos juninos, conheci aquele que seria “o grande amor da minha vida”. Eu tinha vindo de duas relações de extremo ciúme, e esta, era uma característica que eu já não podia tolerar. Por isso, ele me conquistou. Ao lado dele, eu era livre. Eu podia ser quem eu quisesse. Passei um tempo fora do Brasil, e, ao invés do amor definhar, ele encorpou. Não tardou para que morássemos juntos, assim que voltei as Terras Brasileiras. Em pouco tempo, toda aquela empolgação da liberdade, se transformou em frustração. Ele trabalhava viajando, e quando estava em casa, já não me procurava como mulher. Pouco a pouco, fui perdendo o chão, a dignidade, o amor próprio. Ganhei quilos, tristeza, olheiras. Eu era a imagem do desamor. Quando descobri que o motivo da sua ”falta de interesse” era o interesse por outras mulheres, as quais, ele se relacionava constantemente durante a nossa relação, meu mundo caiu. Foi aí que também perdi a compostura e acertei-lhe com um belo tapa na cara de mão cheia! Sim, fui capaz desta atitude!!! E percebi que meu desequilíbrio poderia me levar a um caminho perigoso. Preferi calar. Depois de meses de tortura mental, finalmente, terminamos a relação. E ele, voltou a me procurar. Queria retomar a relação, eu, agora, “era a mulher da sua vida”. E aí, veio outra tortura: Por quê? Por que ele estava comigo, querendo outras? Se ele não me amava, por que me mantinha ao seu lado? Se tinha experimentado o gosto da liberdade, porque queria se prender a mim?
Estudos apontam que a monogamia foi uma criação recente. Mais de 80% das sociedades humanas foram poligâmicas. A ideia de ter apenas um parceiro, surgiu quando a sociedade começou a se estruturar de forma patriarcal, onde homens que acumularam fortunas não tinham para quem deixar seus bens. A descoberta dos filhos biológicos então, deram a esta estrutura a opção das heranças de família. Se cada mulher poderia ter apenas um homem, este teria certeza de que sua prole era, de fato, sua. E com isso surge a sociedade monogâmica. Pelo menos entre as mulheres, já que, para os homens, era comum e aceito, diga-se de passagem, ter relações fortuitas fora do matrimônio. Os frutos destas relações eram os bastardos e estes, ficavam a ver navios. Outro estudo conta, que, o possível surgimento da monogamia como comportamento social, seja a proliferação das DSTs. Com as trocas comuns entre parceiros, homens e mulheres contraiam essas doenças, que, em muitos casos, levavam a infertilidade. Sendo assim, caía a taxa de natalidade, resultando num menor número de trabalhadores para sustentar o sistema. Com isso, era mais negócio reduzir o número de parceiros, e garantir, além da herança, a fertilidade e o aumento populacional. Meu amor para toda a vida? Não, a questão foi meramente monetária, mesmo.
E olhando para esses estudos, e tantos outros a que tive acesso, vêm perguntas intrigantes: “Então quer dizer que nosso DNA é feito para o amor livre, mas a nossa condição social nos fez monogâmicos? Então quer dizer, que na verdade o “normal” é trair, e eu que fiz papel de besta todo esse tempo? ” Não. Calma, garota, ainda faltam coisas a explicar. Ufa! Entendo que nós, mulheres, fomos programadas, a, desde os primórdios, aceitar a compartilhar nossos parceiros com outras mulheres por uma questão de sobrevivência da espécie. Isso ficou no nosso DNA e talvez, seja por isso, que muitas mulheres, em algum momento de suas vidas tenham convivido, e aceitado, as traições de seus parceiros. Conheço inúmeras que convivem sabendo de todas as puladas de cerca do marido. Conheço inúmeras que perdoaram os casos de infidelidade. “Quem nunca pegou uma traiçãozinha do marido, né? É normal. Coisa de homem”. Oi? É coisa de homem trair, e coisa de mulher aceitar? Ainda não entendi, mas talvez, biologicamente seja. O homem não suporta dividir sua mulher com outros homens. Com outros parceiros, não se podia ter certeza de quem era o pai dos filhos, e isso, é inaceitável ao indivíduo macho, que veio nesta terra para procriar. Uga Uga! Está no DNA do homem garantir a propagação da espécie, tendo o maior número de parceiras. Sempre ele, o maldito DNA!
Exatamente por sermos seres sociais e culturais, é que fomos moldando nosso comportamento, através do tempo. O fato é que, começamos a nos guiar pela moral. Foi ela quem moldou conceitos como fidelidade, amor, respeito, família, e foram mudando a forma como nos relacionamos. A história da herança ainda se conforma, mas estamos hoje, numa época de diretos iguais nunca antes alcançados pela humanidade. Saímos dos instintos biológicos de “reprodução” e “sobrevivência” e partimos para a escolha. Sim, escolha. Embora seja um pouco difícil de entender quando algo assim nos ocorre, tudo numa relação a dois está baseado em escolha e lealdade. Mais do que procriar, hoje, queremos amar e ser amados. Queremos companheiros fantásticos. Queremos alguém com quem possamos dividir a vida, os planos, as tristezas e alegrias. Aquele alguém que abre os potes de azeitona, enquanto você faz um jantarzinho bacana. Aquela pessoa que valha a pena voltar para casa todos os dias. Sim, minhas amigas, isso é uma questão de escolha. Assim como na antiguidade, ao longo de nossas vidas, teremos acesso a muitas pessoas fantasticamente interessantes, ao primeiro piscar de olhos, loucos para serem desvendados. Aí, nos resta o querer. Quero desvendar desconhecidos pelo mundo, ou quero desvendar, a cada dia, o meu conhecido? Esta é a escolha. Todos temos desejos. E todos somos capazes de amar pessoas diferentes ao mesmo tempo. “Igualdade é tratar os desiguais, desigualmente”, e com o amor, não é diferente. O que difere um traidor de um fiel, é o querer. Quando se unem dois seres, há aí, uma união de culturas, costumes e crenças. Se hoje, temos a liberdade de escolher, porque não temos a mesma liberdade de fazer nossas próprias regras? Entender o que é importante ou intolerável para o outro é o que vai definir como a relação irá evoluir, e cabe a você barganhar suas condições. Aqui, o certo e o errado serão estabelecidos pelo casal, não pelo mundo. Isso é lealdade. Ser leal, não quer dizer ser fiel. Quer dizer, que se você estabeleceu regras de convivência, você deve segui-las. Somos leais a nossos amigos, a nossos familiares. Porque não aos nossos cônjuges?

Sei que parece estranho, mas a sinceridade é a melhor aliada da relação a dois. Se aquela pessoa que está ao seu lado não materializa mais os seus sonhos, a ponto de você querer “desvendar mistérios por aí”, é chagada a hora de uma boa conversa. O que é combinado não sai caro, e o seu parceiro após querer morrer e te matar, não necessariamente nesta ordem, vai entender a nobreza de sua atitude. Vai valorizá-lo muito mais. E quem sabe, você também descubra, que ele também tem muitos mistérios a desvendar. No lugar do ódio e rancor, poderá nascer uma relação de amizade e confiança. Não é fácil ser sincero, nem com outro, e muitas vezes, nem consigo mesmo, mas essa, é mais uma das belezas do amor.
Enfim, retomei o fôlego e continuei a conversa: “Você bem sabe, que passei por isso. Se eu posso te dá um conselho, não perca seu tempo procurando culpados. Depois de querer matar todo mundo, de se matar, de fazer uma plástica, de culpar o Papa, vai vir a calmaria. E você vai se descobri uma mulher que nunca pensou ser. Mais forte, feliz e confiante. E esta futura mulher terá o terrível “defeito” de não querer se deixar enganar. Eu sei, eu sei, a gente sempre acha que a culpa é nossa. Que fomos péssimas esposas. Que a culpa é daquela cidadã que virou a cabeça dele! Não, não foi culpa sua. Aliás, com o tempo, você vai entender que nem existam culpados. O que existem são escolhas, e a escolha de trair foi completamente dele. Assim como a de perdoar ou seguir é unicamente sua. Seja lá qual for, estou aqui. Sempre. ”. Ah, e quanto ao “grande amor da minha vida”, hoje, somos apenas bons amigos.

Fontes:
amoreslivres.wordpress.com – História da monogamia
Superinteressante Edição nº 260 – E se… não existisse a monogamia?
Superinteressante – Humanos desistiram da poligamia por causa de DSTs, diz estudo

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